segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O paradígma educacional e a prática da sala de aula com tecnologias

Não há dúvidas de que vivemos hoje na sociedade da informação e comunicação. Ouvimos muito falar para expressar o momento atual, que vivemos na era do conhecimento, na era digital, na era da comunicação, aspectos que refletem o momento social e o papel das tecnologias de informação e de comunicação nas relações sociais, culturais e econômicas de nossa época. Nessa perspectiva torna-se necessário repensar o papel da escola e da aprendizagem.
Mas será que o sistema educacional brasileiro está preparando nossos jovens para a vida e está desenvolvendo as habilidades e competências necessárias para atuarem no mercado de trabalho atendendo as necessidades e novas exigências do mesmo e da sociedade do conhecimento?
Infelizmente nosso sistema educacional ainda continua sintonizado com a formação voltada para produção em série, visão fragmentada do conhecimento e do trabalho, condizente com a aprendizagem tradicional, que privilegia a memorização de definições e fatos, bem como soluções padronizadas, própria da sociedade industrial que visa resultados imediatos e não atendem as exigências deste novo paradigma.
Educação é formação holística e, portanto, esse modelo de educação e de aprendizagem são responsáveis também pela fragmentação do "Ser" que deixa de ser um todo e se torna alienante supervalorizando objetos e necessidades fictícias.
Aprender a "Ser", segundo Moran pode ser visto como o mais importante dos pilares da educação, pois ressalta a necessidade de superação das visões dualistas acerca do homem e das visões fragmentadas da educação. Aponta que a educação deve contribuir para o desenvolvimento integral do ser humano, não negligenciando nenhuma das potencialidades do indivíduo, ou seja, precisa promover a evolução de espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético e ético, responsabilidade pessoal, espiritualidade. Devendo criar um referencial de valores e de meios que preparem a pessoa para compreender e atuar em sociedades diferenciadas, tendo como papel essencial, proporcionar liberdade de pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação, que possibilitem o desenvolvimento de seus talentos e da sua autonomia.
A formação do aluno consciente e crítico não passa apenas pela ação pedagógica problematizadora mediada pelo professor, mas pelo repensar da pedagogia educacional e da organização curricular das escolas. O modelo de educação fragmentada não condiz mais com as necessidades da sociedade hoje. Esse é um dos desafios da escola: preparar nossos jovens para exercerem plenamente a cidadania, para enfrentarem novos ambientes de trabalho e para viverem numa sociedade mediada pelas tecnologias e pela mídia. Cabe então, uma reflexão sobre como a escola está enfrentando essa questão com vistas a integração das mídias em sua proposta e ação pedagógica. A presença das tecnologias na sala de aula não garante a integração das mesmas no processo de aprendizagem, isto é na construção do conhecimento, conforme Moran,1995, as tecnologias tanto servem para reforçar uma visão conservadora, individualista, como uma visão progressista.
Segundo Borges, 2003, a utilização das tecnologias na escola está sempre vinculada à concepção teórico-metodológica adotada pelo professor. A visão tradicional de educação é mais comum em nossas escolas e está sintonizada com aquela concepção fragmentada de formação para o trabalho em série e do conhecimento. Nessa concepção, o foco da tecnologia inserida no processo educacional é como de um recurso e o enfoque recai na sua correta utilização, priorizando portanto, a técnica de ensino adotada pelo professor. "A educação tradicional atribui caráter utilitário às tecnologias" (Borges, 2003) como poderosas ferramentas com um fim em si mesmas e não como uma forma de auxiliar o aluno a avançar no processo de aprendizagem. Essa forma de conceber as tecnologias na educação, pressupõem a aprendizagem como um ato individual, desconsiderando seu caráter social e coletivo, o que a caracteriza como a educação tecnicista, tão criticada por alguns pensadores. Conforme Valente, 2005, segundo essa concepção, “o professor ensina quando passa a informação para o aluno e esse aprende porque memoriza e reproduz fielmente essa informação”.
No atual contexto social, cultural e econômico vemos que as tecnologias proporcionam grandes mudanças nas formas de pensar e de conceber o conhecimento. O conceito de aprender passa a ter nova interpretação que é a de construir o conhecimento e desenvolver a habilidade de trabalhar em grupo, o que caracteriza a aprendizagem colaborativa, isto é, atividades desenvolvidas pelos integrantes de um grupo motivados por intenções comuns, de forma cooperativa num processo de continua complementação.
A concepção de construção do conhecimento e de aprendizagem colaborativa, estão em plena sintonia com as TIC, onde os ambientes virtuais se caracterizam pela interação, pela produção coletiva do conhecimento interdisciplinar que requer a capacidade criativa, inovadora e de ver o mundo como unidade e fruto de colaboração e participação. É a concepção de educação sociointeracionista, na qual as tecnologias não são, um fim em si mesmas, mas são meios para a construção de um projeto educacional maior, são fontes de aprendizagem e não apenas de informação, onde o aprendiz depura e re-significa o objeto do conhecimento balizado pela rede complexa de fatores culturais, sociais e técnicos.
É o aprender a aprender. Processo que envolve aprender a se expressar, a ouvir o outro, aceitar e respeitar posições, interagindo colaborativamente para a reconstrução das idéias e ações, o que se embasa nos pilares básicos da cidadania que é o respeito às diferenças, a tolerância, a compreensão do ser e do aprender a ser e a fazer, possíveis apenas em ambientes de interatividade e de construção coletiva.
Vimos então, que a escola tem um grande desafio para efetivar a inclusão tecnológica na sua prática pedagógica, que passa por uma mudança de paradigma educacional e a compreensão da educação como um processo de construção do conhecimento pelo aluno. Na implantação dessa mudança pedagógica está subjacente outro grande desafio que é a formação de professores, tornando-os capazes de passar da pedagogia tradicional, diretiva e reprodutora, para a pedagogia ativa, criativa, dinâmica, libertadora, apoiada na descoberta, na investigação e no diálogo(Valente,2003).
A formação do professor para integração das TIC, mais especificamente do computador em sua prática pedagógica é um processo que deve passar pela atitude reflexiva da função da educação escolar, do papel do professor, das teorias construcionistas e, nesse direcionamento, as possibilidades que o computador oferece para criar ambientes de aprendizagem colaborativos promovendo construção de redes de conhecimento, ou seja, de aprender a aprender.




Notas
¹ Meios de comunicação de massa

MORAN, J. M . Novas tecnologias e o re-encantamento do mundo. Revista Tecnologia Educacional. Rio de Janeiro, vol. 23, n.126, setembro/outubro 1995, p.21-26

____ As Mídias na Educação. [on-line]. Faculdade Sumaré de São Paulo. Disponível em: http://www.eca.usp.br/prof/moran/textos.htm

BORGES, M. K. et al. Tecnologia, educação e aprendizagem: os desafios para o educador na era da comunicação e da informação. Florianópolis. UDESC/CEAD,2003. Caderno Pedagógico.

VALENTE, J.A., Integração das Tecnologias na Educação. Salto para o Futuro. Secretaria de Educação à Distância. Brasília, 2005.

ALMEIDA, M.E., Informática e Formação de Professores. Vol 1. Série de Estudos - Educação à Distância. Proinfo. MEC. Brasilia, 2000

Um comentário:

Anônimo disse...

Para iniciar uma reflexão sobre a integração das tecnologias na prática pedagógica, é fundamental retomar as questões de paradígma e concepção de educação, pois o uso das mídias e, neste caso mais especificamente do computador, como um fim em si mesmo, não viabiliza a construção do conhecimento. Para isso é preciso compreender a raíz pedagógica e as ações que a permeiam a fim de desencadear o processo de ensino-aprendizagem na forma de construção do conhecimento de maneira reflexiva, participativa, colaborativa e interativa. Aprender com tecnologias, é criar ambientes significativos que permitam a construção autônoma permitindo ao aluno a autoria consciente da re-significação da informação e produção do seu conhecimento.
Marinez